quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Aninha (Conto)

Os olhinhos dela acalentavam a ansiedade, em sua mãozinha os dedinhos se curvavam e levantavam-se espontaneamente e inconscientes ordenados pelo furor de emoções que sentia.
Não havia pisca-pisca algum para refletir-lhe nos olhos amendoados, mas estes brilhavam intensamente uma esperança triste, inconformada com a realidade.
Ainda ontem arrastava e cravava uma colher na areia vermelha do terreno baldio ao lado da casa onde mora, pegou escondido da mãe após o almoço: pão e feijão.
Ela fez um castelo, uma fortaleza cercada de água de esgoto onde nenhum mal pode se aproximar dos portões que selam a fronteira mundana. E ficou ali, plantada, feito gira-sol, observava calada, encantada com seu feito artístico.
Considerava-se a maior arquiteta do mundo, nem sua casa construída aos papelões encontrados possuía tanto glamour que seu castelo.
Aconteceu que a mãe se deu conta da colher, e descobriu a brincadeira, ralhou com a menininha, a chuva castigava naquele fim de tarde, e ela se pôs a chorar escondida dentro do banheiro.
No outro dia de manhã ia ajudar a mãe nos faróis da metrópole cinzenta, acordou cedo e foi logo despertando a mãe delicadamente, prepararam as poucas gomas que sobraram e saíram em busca de um ganha pão.
A cidade fica cheia de símbolos natalinos nessa temporada festiva, a menininha encantava-se mesmo não entendendo o verdadeiro sentido de tantos clichês. Ela saltava durante a caminhada, eufórica, ouviu de um coleguinha a respeito dum tal papai Noel, mas não entendeu direito, sabia que ele estava pra chegar, mas não sabia quando e nem onde.
A cada vitrine que ficava para trás seus olhos amendoados alimentavam-se de cores e enfeites brilhantes das novas lojas que surgiam. De repente ela parou, sua mãe a puxava pelo braço na intenção de prosseguir, mas ela insistiu em paralisar, e paralisou. A mãe a observando logo se deu conta do que era, não deu a mínima á surpresa da filha.
Os olhinhos dela acalentavam a ansiedade, em sua mãozinha os dedinhos se curvavam e levantavam-se espontaneamente e inconscientes ordenados pelo furor de emoções que sentia.
Não havia pisca-pisca algum para refletir-lhe nos olhos amendoados, mas estes brilhavam intensamente uma esperança triste, inconformada com a realidade, e pensava sobre o objeto banhado a ouro, bordado artesanalmente flores de jasmim e luxuosamente acompanhado de uma gema belíssima no cabo.
- Quando eu vou poder ter uma colher como aquela da vitrine?
Indagou seu ser...
Indagou seu ser...
Indagou seu ser...

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